Os "Bôtchos" de Toco Jabão


Roubei este texto de http://www.basagueda.blogspot.com/, se tiverem paciência vale a pena ler. A história passa-se em Aldeia do Bispo - Penamacor.

Toco Jabão tinha um cão - o Toniche- e uma cachorrinha - a Loc - de quem gostava mais que da família, podia dizer-se sem receio de errar. Caçador como era, odiava gatos. Passou essa sua aversão aos felinos aos dois bôtchos. Loc era, a bem falar, uma amostra de cachorro. Não sei se pesaria dois quilos e a sua agilidade a saltar para o colo de toco jabão era impressionante: bastava ver ou cheirar um gato e, de imediato, dava sinal com um latir especial. Toco entendia a mensagem, logo descobria o gato, chamava Toniche, poisava Loc na bifurcação da árvore, se fosse o caso, a cachorra subia, o gato era acossado, Toco ajudava à pedrada, o gato via-se na emergência de saltar e aí arrancava Toniche que lhe agarrava pela espinha e vindimava o gato num instante, regressando para as festas. Como se vê nada de comportamento exemplar. Havia de ser hoje...
Sem dúvida o cão mais famoso que percorreu as ruas de aldeia foi o NERO: resultado de cruzamento de uma cadela Serra de Estrela com outro qualquer cão, ele era a paz em pessoa, digo, em cão. Qualquer garoto lhe fazia festas e até alguns iam às cavalitas do Nero que parecia entender e andava mais devagarinho. Está bem de ver que nada faltava ao Nero. Sendo ele pertença da casa mais rica, ao tempo, a casa Campos, não era necessário preocuparem-se com a alimentação do cão porque nós, os garotos, lhe arranjávamos a comida que ele precisasse. De Verão, era vê-lo espojado à sombra da casa do Pirolas onde a ti Esperança tinha uma espécie de goteira que humedecia o solo. Era aí que o Nero dormia as sestas. Vida de cão, era o que era: comer e dormir...
Foi este cão durante anos guarda do rebanho da casa Campos ali para os lados das portela, batcharel, frade e minas mas a idade tudo traz de mau e o cão para além de custar a alimentar ao Chquim da Senhora, já não via o que devia e então veio para a aldeia.
Contava o filho do Chquim da senhora que o via engolir sem quase mastigar quando a comida não exigisse moagem dentária. Espantado dizia para o pai:«Ó senhor, meu pai, porra, o Nero nem mastiga, parece que só engole!» e o Chquim:« tu num vês, mê tonto que o cão só mastiga até que olhe para o olho do cu... ele só escarcha os ossos porque arrepara no tamanho do osso e na roda do olho cego e pensa assim: se engulo o osso de uma vez, apoi, ao sair, num me cabe no bureco e pior é se lá chega de travesso. É só por isso que o Nero quase num mastiga. Se pudesse engolia tudo inteiro com aquela bocarra.»
Para que conste: aqui fica a razão de os cães terem que mastigar um pouco os ossos.
Já estava com saudades vossas. Não sejais como o Nero: bebei a comida e mastigai a bebida. Tudo devagarinho que o estômago não tem dentes e o intestino não é nenhuma malhadeira
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